Protocolo SAA — Internação  ·  Baixar PDF

Protocolo Clínico · Referência Rápida

Manejo da Síndrome de Abstinência Alcoólica no Paciente Internado

Estratificação de gravidade, desintoxicação com benzodiazepínicos, prevenção de Wernicke e manejo do delirium tremens.

Data: 25/06/2026 Base: ASAM 2020 · NICE CG100/CG115 · prática consolidada

Documento de apoio à decisão clínica em ambiente de internação (enfermaria, CAPS III, hospital geral). Não substitui o julgamento individual à beira do leito.

1. Avaliação inicial e estratificação de risco

À admissão, registrar: tempo desde a última dose, padrão de consumo (quantidade/dia, anos de uso), comorbidades clínicas e psiquiátricas e, sobretudo, episódios prévios de abstinência grave — o melhor preditor isolado de gravidade.

Fatores de risco para abstinência complicada (convulsão / delirium tremens)

Escala CIWA-Ar — 10 itens (9 itens de 0 a 7; orientação de 0 a 4; máximo 67 pontos)
Faixa de pontuaçãoGravidadeConduta orientada
< 8–10LeveObservação seriada; medicar apenas se progredir
10–18ModeradaTratar com benzodiazepínico; reavaliação frequente
> 18–20GraveTratamento agressivo, vigilância intensiva, considerar UTI

Itens avaliados: náusea/vômito, tremor, sudorese paroxística, ansiedade, agitação, distúrbios táteis, auditivos e visuais, cefaléia e orientação/sensório.

Pré-requisito para usar a CIWA-Ar com segurança: paciente comunicativo e orientado, sem condição que mimetize abstinência (sepse, AVC, encefalopatia, intoxicação). Em paciente incomunicável/intubado, usar escala objetiva (ex.: RASS associada a sinais autonômicos), não a CIWA-Ar.

2. Linha do tempo da abstinência

3. Manejo farmacológico — Benzodiazepínicos (1ª linha)

Reduzem sintomas, crises convulsivas e a progressão para delirium tremens. Constituem a base do tratamento.

Escolha do benzodiazepínico
FármacoPerfil farmacológicoQuando preferir
DiazepamLonga ação, metabólitos ativos; auto-tapering suavePadrão no paciente hígido; menor risco de sintomas de rebote
ClordiazepóxidoLonga açãoDesintoxicação clássica em esquema de dose fixa
LorazepamAção intermediária, sem metabólitos ativos, eliminação por glicuronidaçãoHepatopata, idoso, debilitado; via IV em convulsão ou delirium tremens

Esquema A — Sintoma-dirigido (symptom-triggered) · PREFERENCIAL

Menor dose total e menor tempo de tratamento. Exige equipe treinada e reavaliação seriada da CIWA-Ar.

Esquema B — Dose fixa com tapering

Indicado quando não há monitorização confiável ou em alto risco (DT/convulsão prévios).

Front-loading (carga inicial) na abstinência grave / risco de DT

Diazepam 10–20 mg VO/IV a cada 1–2 h até sedação leve. A longa meia-vida confere tapering automático.

Refratariedade (benzodiazepínico em altas doses sem controle):

4. Tiamina e correção metabólica

Regra inviolável: administrar tiamina ANTES de qualquer aporte de glicose — glicose sem tiamina pode precipitar encefalopatia de Wernicke.

Reposição associada: magnésio (corrige refratariedade a BZD e risco convulsivo), potássio, fósforo, folato. Hidratação criteriosa e correção glicêmica. Monitorar o sódio e evitar correção rápida (risco de mielinólise pontina).

5. Delirium tremens e crise convulsiva

Delirium tremens — emergência

Crise convulsiva por abstinência

6. Critérios de nível de cuidado

Internação (vs. ambulatorial): história de DT ou convulsão, CIWA-Ar alto, comorbidade clínica/psiquiátrica descompensada, risco de suicídio, gestação, ausência de suporte social ou falha de desintoxicação ambulatorial.

UTI: delirium tremens, necessidade de BZD em doses muito altas, instabilidade autonômica grave, insuficiência respiratória ou comorbidade crítica.

7. Após a desintoxicação — não encerrar aqui

Desintoxicação não é tratamento da dependência. Encaminhar e iniciar prevenção de recaída:

8. Codificação diagnóstica

CID-11: 6C40.2 transtorno por uso de álcool (dependência); 6C40.4 estado de abstinência; 6C40.5 delirium induzido por álcool.

CID-10 (perícia/INSS): F10.2 dependência; F10.3 estado de abstinência; F10.4 abstinência com delirium.

Pontos críticos — não esquecer

  1. Tiamina sempre antes da glicose.
  2. Benzodiazepínico é a base; antipsicótico nunca isolado.
  3. Symptom-triggered reduz a dose total, mas exige reavaliação CIWA seriada e equipe treinada — sem isso, usar dose fixa.
  4. Magnésio corrige a refratariedade aos benzodiazepínicos.
  5. Pior preditor de gravidade: história de abstinência grave prévia.
  6. Desintoxicar é só o começo — encaminhar para anti-craving e CAPS-AD.

Documento de apoio à decisão clínica, elaborado para compartilhamento entre profissionais. As doses são orientativas e devem ser ajustadas ao peso, função hepática/renal, idade, comorbidades e resposta individual de cada paciente. Não dispensa a consulta às referências primárias nem o julgamento clínico à beira do leito.